Hoje...
... não tive sexo.
Para quê essa faca
Junto ao meu peito?
Leva o coração, os olhos, a boca,
Tudo isso é teu.
Deixa-me apenas a alma e os dedos,
Para te poder escrever sem que me leias.
E mesmo que não me oiças
E não me leias
E não me sintas senão para me levar aos poucos,
É para viver que te escrevo
E para me matares devagar.
Mata-me.
Todos os dias, mata-me.
Os olhos transpiram
Nesta noite de calor, presos a ti.
Não são lágrimas, não;
É o suor de te amar,
De arder neste chão contigo.
Que só é a casa,
Sem ninguém a dormir ao lado.
Queria que estivesses aqui,
Mas hoje não é amanhã.
Acaba, Noite.
a privação prolongada do sono é uma merda. nunca mais é amanhã às três da tarde?! Zzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzzz
Tens um elástico no cabelo, a apanhá-lo num rabo-de-cavalo. Branco, com riscas pretas. O elástico, claro. Não sei de que cor é o cabelo, ainda não o vi. A dos olhos também não, nem da pele. Gosto do teu corpo, inevitavelmente. Gosto do teu toque, incontestavelmente. Tu sabes disso, obviamente. Olho para ti, sentada em frente a mim. Gosto mesmo do teu corpo, apesar de ainda não saber como é. Pouso uma mão no teu ombro, no pescoço, na nuca. Com a outra, toco-te na anca, na barriga, num seio. Tu sorris, com lábios e dentes que ainda não vi, e os teus olhos brilham, de uma forma que não conheço. Ficas com aquela expressão que ainda tenho de descobrir. Os teus lábios e saliva sabem a algo que desconheço. Não sei o teu nome, mas vou gostar de to dizer, ao ouvido, baixinho, enquanto fazemos amor. Vou delirar com o teu calor, o teu suor, o movimento do teu corpo. Vou olhar-te nos olhos, curvar-te para trás e beijar-te o peito. Vou… Vou ter de procurar-te por aí. Como é que tu te chamas mesmo?
Despacho halls, mel e limão, como se tivesse cinco anos e estivesse a comer sugus. Já nem sei se os comia, se os chupava, mas não interessa, passemos só a publicidade. O meu primeiro chocolate, daquelas barras individuais, foi o lion. Adorava chupa-chupas, rebuçados de mentol para a tosse e, claro, os inevitáveis sugus. Agora despacho halls, mel e limão, como se não houvesse amanhã. Vou trincando os cantos, arrancando pedacinhos que depois desfaço com os dentes da frente e separo o resto num dos lados da boca, ao ponto de quase adormecer a bochecha com a doçura. Quando trabalho, masco pastilhas elásticas, umas a seguir às outras, às vezes duas ao mesmo tempo, o sabor costuma ser indiferente. Chego ao ponto de me doer o maxilar. Em pequeno, era raro mascar, não me deixavam. Acordava cedo e via desenhos animados a manhã toda ou ia para a escola, esconder-me pelos cantos ou fazer rabiscos na terra e fingir que era o crocodile dundee a identificar os rastos de animais selvagens. Lembro-me que as cobras eram às ondas, os crocodilos arrastavam e as bicicletas deixavam furos no chão. A bicicleta, esse animal feroz. Já vou no segundo halls desde que comecei a escrever este texto. Não cresci nos cinco minutos que demorei a trincar o primeiro. Podia estar a ver wrestling, a novela para homens, como disse uma amiga (distante) minha. Podia ser isso os meus novos desenhos animados. Podia estar a ler bd, como ainda faço e como fazia em não tão pequeno, mais a puxar para o adolescente. Lembro-me que o meu primeiro livro de bd de super-heróis foi um do wolverine, numa luta sangrenta com o sabretooth, traduzida para o “brasileiro”. Tinha 13 anos e estava no Algarve. Ainda leio esse tipo de bd (e ZITS), mas agora em “americano”, sacado directamente da fonte todas as semanas. Sou maluco, já não sou pequeno. Continuo a adorar os playmobil. Já não vejo tantos desenhos animados, já não sou tão pequeno. Os meus desenhos animados agora são o cheque que me chega no correio, a transferência bancária, o dinheiro vivo em mão. Os meus desenhos animados são os livros, os filmes, as músicas, as mulheres, os amigos. E o trabalho. O estupor e inevitável trabalho. E vou para o terceiro halls. Já não sou pequeno. Continuo a não fazer sentido, mas já não sou pequeno. Acho que vou chamar a esta coisa “divagações”.
I guess it's hard for people who are so used to things the way they are - even if they're bad - to change. 'Cause they kind of give up. And when they do, everybody kind of loses.
Nesta ponte, a vontade de dar um passo em frente ergue-se aos céus. Um passo em frente, vários metros em queda livre, completamente desamparada, e tudo acaba. Quem sou eu? Não sei, em breve poderei ser ninguém. Os carros passam por mim e ninguém pára. Não há um “mas”, apenas um “e”. “E” ninguém pára. Não sou invisível, sou uma pessoa, alguém que poderia perfeitamente ir num destes carros que não param. Eu também não pararia. Fecho os olhos e inspiro fundo, a cabeça a cair para trás. Não está a chover, não há nevoeiro, como em tantas outras noites na Arrábida, esse fumo húmido espesso que não deixa ver as luzes do Porto. “E” ninguém pára. Abro os braços, como se clamasse, como se quisesse voar, mas a pique, para acabar num splash no Douro. Splash. Um grande e pesado e sonoro… splash. Lembro-me do Trevor. Lembro-me dessa criatura do cinema, pura e inocente, que mudou o mundo. Mas também me lembro do Tyler. Ele mudou o meu mundo. Ou talvez só tenha soprado o nevoeiro para longe. Ninguém pára, you have to consider the possibility that god does not like you. Mas se ninguém pára, o que estou aqui a fazer? Saltar e não ser visto? Morrer sem valor, sem fazer com que alguém saiba por que morro? Morrer sem mudar o mundo, sem mudar o mundo de alguém? Desço do parapeito e aproximo-me da estrada. Se me atirasse para debaixo de um carro, não, de um autocarro, vários carros parariam. “E” talvez mudasse o mundo deles. “E” talvez soubessem por que o fiz. “Mas”… Passo pelos rails. Estou a pedir boleia. Vou mudar o mundo. Bem… “talvez” vá mudar o mundo. Um carro de cada vez. “E”… alguém pára. Numa ponte.
– Boa noite, ia atirar-me, mas mudei de ideias. Quer ajudar-me a mudar o mundo?
Esqueci-me do que ia dizer de manhã. Ou quis esquecer. Virei-me e não vi lá ninguém. Como me apeteceu abraçar-te… Enfim, não estavas comigo. Estavas do lado de fora da janela, mas não suspensa, à espera que abrisse a vidraça. Estavas longe, muito longe e a única prova da tua existência era o cheiro da camisa que usaste comigo e que ainda não tive coragem de pôr a lavar. Queria abrir os olhos e ver-te ao meu lado, queria que fosses tu que eu abraço e não esta almofada grande que comprei para te imitar. Queria tanto e acabo por ter tão pouco. O vento sopra-me o cabelo, são os teus dedos a afagar-me. Deito-me. Por agora, pouco mais me resta do que a vontade. Quero muito estar contigo.
Diz-me, lua amarela, o que é feito de roma? Destruiu-se? Caiu? Perdeu-se no emaranhado da fragilidade humana? Diz-me, lua, estou cansado, mal ergo os braços, quanto mais a cabeça para olhar do outro lado da montanha. Ainda há roma?
Red haired women are fascinating. I mean, imagine a guy sitting, drinking, whatever. And then he sees a red hair. He starts thinking “wow, her hair is red… it’s not blonde and it certainly isn’t black. It’s brown, ok, but not just any kind of brown. It’s red. Light red or dark red, but it's red.” And then the guy starts thinking “I want to touch her hair. I want to kiss her lips and feel her breasts.” And when his eyes look down on her and he sees a big tuft of red hair, he thinks “wow, that’s red too… Why is it red? How is it red?” And finally the last thing he thinks is “I want to be inside that tuft of red hair. I want to be inside her sweet, warm, red tuft of hair and not come out ever again. I want to stay in there for as long as I possibly can, inside her redness, touching her red hair, and kissing her lips, and feeling her breasts.” And he stays there. Because red women are fascinating.
Olho-me ao espelho de relance, passo a mão pelo cabelo numa espécie de pentear que não o chega a ser. Aperto o casaco e saio para o frio, sem medo. Caminho, quase a galope, pelas estradas de paralelo que conheço desde pequeno. Avanço, subo, escalo quando é preciso. A cidade não é grande e está ao longe, vejo-a, as suas luzes a fingirem que são estrelas que caíram ao chão e continuaram a brilhar. Debruço-me no muro, por um momento. Imagino casais atrás daquelas luzes, invado-lhes a privacidade, por um momento. Sou o quarto de paredes brancas. Sou a luz que arde. Sou a cama que abana. Sou os lençóis que se encharcam. Por um momento. Sou o casal. Sou o penetrador e o penetrado. Sou o corpo que empurra para a frente e o que é empurrado. Sou o casal, aqui, por um momento. Sou a minha mão que me toca, sou a minha boca que me beija, sou o meu pénis que me penetra, uma e outra e outra vez. Sou a minha saliva que me escorre pela pele. Sou eu que me venho, em uníssono, sozinho, feliz, insatisfeito. Sou eu que pouso a cabeça no meu peito ofegante, sou eu que adormeço aninhado nos meus braços, sou eu que sussurro com os olhos
amo-te.
Sacudo a cabeça, encostado ao muro. Inspiro fundo, de olhos fechados, e seguro o sopro. O ar gasto queima-me os pulmões, a cara arde a vermelho. Com os olhos abertos, nos casais, nas luzes, solto um
amo-te
ao vento. Sorrio e retomo a marcha. Regresso a casa.
Não sei se haverá estudo psicológico para lidar com esta perda. É possível que não haja, não tem o peso de perder um braço ou uma perna, nunca se ouviu falar em doentes que sentissem um dente fantasma que mastigava em conjunto com os reais. Ainda assim… a perda de um dente magoa sempre, aliás, dói mesmo, consoante a habilidade do médico. O meu dentista, desde pequeno, é o Xotôr José Luís de Freitas, nunca mais ninguém me mexeu na boca, pelo menos para tratar de dentes (sim, conotação sensual estranhamente desajustada quando se fala de um dentista homem…) e nunca tive grandes queixas, mesmo quando teve de me arrancar um dente. Sim, falta-me um dente, o penúltimo do lado direito. É só um dente e não deveria ser traumático. Mas perdi-o. Tenho os outros dentes todos para mastigar, antes de o arrancar nem dava por ele, nem sequer pensava que me fosse fazer falta. Mas agora… todos os dias mastigo e todos os dias sinto a falta dele. Por vezes tento não pensar nisso, por vezes tento até não mastigar desse lado, mas sempre que a língua ou algum pedaço de comida lá passa… o vazio está lá.
Sinto a falta do meu dente.